Que presente quero
receber

Quero
esse ano uma surpresa, agachar-me junto à árvore de natal e,
inebriada, encontrar uma riqueza.
Quero um presente inusitado,
daqueles que por você, jamais foi imaginado.
Não quero flores,
murcham com o passar do tempo,
se esquecem que enfeitaram algum momento.
Também não
quero jóias, cobrir meu corpo como uma vitrine
e a alma continuar vazia e fria, vai me causar agonia.
Cartões e bilhetes
vou dispensar, com o tempo tendem a amarelar,
o que foi escrito vai se apagando, o que ali foi dito, silenciando.
Fugir para um motel
e nos enrolarmos em lençóis de cetim? ...
não serve pra mim, gosto mesmo é da minha cama,
onde escondo os meus segredos, e onde os revelo sem medos.
Viagens com roteiros
gastronômicos também não vou querer,
porque sei que a receita que procuro, nenhum gourmet vai me oferecer.
Abro mão da tal
casa de campo, não há de ser lá,
entre as montanhas e sob a neblina, que o meu presente poderá estar.
Afinal, ele não se esconde em qualquer lugar.
Versos e canções
com o tempo perdem-se na imaginação,
a memória não registra com exatidão.
Gestos e olhares também
vou dispensar, já foram tantos que por mim vi passar,
falsificados, miseráveis, infelizes e covardes.
Também não
quero nada que tenha sido feito com as mãos,
quero algo divino, que Deus tenha projetado com carinho.
O presente que esse
ano eu espero ganhar é único,
é valioso, é ardente e gostoso.
Ele não está
à venda em nenhuma loja,
não adianta você procurar, não vai achar.
Vou ficar aqui imaginando
então,
como poderia ser esse instante de tanta emoção...
Quando meia noite chegar,
vou me aproximar
da árvore devagar e um barulho começar a escutar.
Tum Tum ...Tum Tum...
Tum Tum
Perceberei então,
que o som vem de dentro de um presente,
que estará embrulhado num papel colorido e reluzente.
Um laço de fita
enorme o envolve, a impressão que me dá
é que ele está ali a amarrar algo que quer muito se soltar.
E aquele som vai aumentando
à medida que
do presente vou me aproximando...
Tum...Tum........Tum...Tum........Tum
Tum
Vou ficando ansiosa,
tensa e nervosa e fico a imaginar
que presente foi esse que você foi me arrumar.
De repente, vou percebendo
que dentro do embrulho
ele não está mais se contendo.
O laços vão
se desfazendo, o papel vai se rasgando,
minha ansiedade aumentando e aquele barulho gritando
Tum Tum............Tum
Tum............Tum Tum...........
Dele, um líquido
vai escorrendo, lentamente,
deliciosamente saboroso, é mel do mais gostoso.
Explode finalmente a
embalagem e eu percebo
estar diante de uma miragem.
O presente que você
teria me enviado era o meu sonho de consumo,
não existe nada nesse mundo mais bonito,
mas perfeito, mas meu de direito
Era isso o que eu mais
queria ganhar
de tudo que você poderia me dar.
É o seu coração,
inundado de paixão,
melado de tanta emoção, recheado de amor e de calor
Você está
vendo só? Tão simples o que eu imaginei ganhar
e você ficou aí horas a imaginar que presente deveria me dar!
Com carinho, à
Affonso Romano de Sant'Anna
Autora: Silvana Duboc