Refén de poeta
 
 

Há um pedaço de mim que é desonesto
Tem dias que até é equilibrado
Mas nem sempre é desse jeito sensato
As vezes ele te ama
Outras vezes ele te engana
Tem horas que apenas te suporta
Tem momentos que te idolatra
Em alguns instantes te invoca
Em outros te afasta
Tenho esse pedaço traiçoeiro
Que te corroi o corpo por inteiro
Mas tenho um outro pedaço também
Um que te faz muito bem
Um que te faz de mim, refém
É que sou poeta
E aí te atinjo como uma flecha
Bem no centro do teu coração
Te faço mergulhar na ilusão
De que sou perfeita
A mulher da tua vida
A tua metade perdida
Te engano, isso é verdade
Me tomo de tal crueldade
Te envolvo com a minha chantagem
Te enrosco nas minhas palavras
E no fim, nada dá em nada
E enquanto eu fujo assustada
Com receio do estrago que te causei
Você fica amuado
Pensando no que eu te falei
Ah...mas vai continuar sendo assim
A mim não importa se pra você é ruim
Esse sentimento que mora em mim
Preciso deixar fluir
Se ele te incomoda
Que você saiba partir
Poeta tem dessas coisas
Gosta de escravizar alguém
E quando esse alguém se percebe refém
Aí já é tarde demais
Já não se pode voltar atrás
Nas minhas linhas
Um dia eu falo que te amo
No outro eu te abandono
Depois eu peço perdão
Rapidamente te mergulho na emoção
Escrevo pra você a todo instante
Na frente do computador
Revelo a minha dor
No meio da rua
Cato logo um papel pra dizer que sou tua
Numa festa corro até o garçon
Por favor, um guardanapo
Não é pra limpar meus lábios dos salgadinhos
É pra arrancar deles, alguns carinhos
Quem anda pela vida acompanhado de poeta
Sabe como é
Não importa se é festa
Se é velório
Carnaval ou natal
Quando eu preciso escrever
Se não me dão um papel
Sou capaz de enlouquecer
Já fiz poesia com lápis de sobrancelha
Uma pequena estrofe que me deu na telha
Já escrevi em papel de pão
Já fugi no meio de uma reunião
E escondida no banheiro
O papel higiênico foi a minha salvação
Já fiz do capô do carro minha escrivaninha
Nas costas de alguém registrei as minhas linhas
Usei o batom num pedaço do meu gesso
E se não cometo essas loucuras, endureço
Poeta é sem vergonha
Se expõe sem constrangimento
Revela tudo que sonha
E não escolhe o momento
Inventa paixões que não teve
Raivas que não sentiu
Tem tesão e sede
Por pessoas que nunca viu
Atenção você aí
Se um dia cruzar com essa espécime
Cuidado! Muitos perigos ela oferece
Chega de mansinho
Primeiro faz um carinho
Depois vai se instalando
Você vai achar que está agradando
Mas quando você acordar
Tarde já vai ser pra se lamentar
Vai perceber em que buraco foi se enfiar
Poeta escraviza alguém
Mas dele mesmo, também é refém
Se você em mim está algemado
Não se desespere
Eu também tenho meu coração dominado
Por essas minhas palavras constantes
Por esse sentimento que segue adiante
Você escravo das minhas poesias
Eu escrava da minha inspiração
Ambos presos num porão
Algemados pela emoção.


Autora:"Silvana Duboc"

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